A data de nascimento de Luiz Fernando da Costa, o Fernandinho Beira-Mar, tornou-se uma coincidência curiosa na trajetória criminosa de um dos chefes do Comando Vermelho (CV). Nascido em 4 de julho, Dia da Independência dos Estados Unidos, ele acabou ligado ao país que investigou suas atividades no tráfico internacional de cocaína. Seus crimes o colocaram oficialmente na mira econômica do governo americano em 31 de maio de 2002. Na ocasião, foi classificado como um dos principais traficantes estrangeiros de drogas com base na “Foreign Narcotics Kingpin Designation Act”, a Lei de Designação de Chefes do Narcotráfico Estrangeiro.
Continuar lendo Beira-Mar fornecia armas às FARC em troca de cocaína, diz denúnciaJustiça dos EUA indiciou traficante Fernandinho Beira-Mar por conspiraçãoFernandinho Beira-Mar detalha como foi a Operação Gato Negro, que o levou à prisão; vídeos]Beira-Mar revela medo de ser preso durante fuga e depois ser extraditado; vídeosO governo americano identifica grandes traficantes internacionais e, além de tentar prendê-los e processá-los, impõe sanções econômicas para restringir o acesso deles a recursos financeiros. Embora o nome apareça grafado de forma errada, com a troca do “z” de Luiz pelo “s”, os documentos não deixam dúvida sobre os crimes atribuídos ao traficante, como tráfico internacional de drogas e conspiração.
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Outro brasileiro que passou a figurar na lista da OFAC (Office of Foreign Assets Control), o Escritório de Controle de Ativos Estrangeiros, foi Leonardo Dias de Mendonça, apontado como sócio de Fernandinho. Os dois foram alvo de investigação de agentes da DEA (Drug Enforcement Administration), a agência federal americana de combate ao narcotráfico, por envolvimento com as FARC no tráfico internacional de drogas para os Estados Unidos.
Lista da OFAC, dos EUA, tem Fernandinho Beira-Mar e Leonardo Dias de Mendonça, apontado como seu sócio — Foto: Arte de Renata Amoedo Lista da OFAC, dos EUA, tem Fernandinho Beira-Mar e Leonardo Dias de Mendonça, apontado como seu sócio — Foto: Arte de Renata AmoedoEles não receberam a mesma classificação de terroristas atribuída ao Comando Vermelho e ao Primeiro Comando da Capital (PCC). Beira-Mar passou a integrar a relação após decisão do então presidente George W. Bush. Leonardo passou a ser incluído em 2003.
Durante duas semanas, o EXTRA procurou o Departamento do Tesouro dos Estados Unidos para saber se o órgão poderia rever a classificação de Fernandinho por ele ser um dos chefes do Comando Vermelho, mas não recebeu resposta oficial. O FBI, a polícia federal americana, informou que encaminhou a solicitação ao Departamento de Justiça dos Estados Unidos, que também não respondeu.
Acesso a documentos
O EXTRA teve acesso a documentos que integram o processo 1:02-cr-00112 e foram apresentados ao Grande Júri do Distrito de Columbia, em Washington, nos Estados Unidos. Neles, constam os indiciamentos de Fernandinho Beira-Mar e Leonardo Dias de Mendonça por conspiração para importar cocaína e para fabricar e distribuir nos Estados Unidos a droga proveniente da Colômbia.
A DEA, agência americana de combate às drogas, descobriu a ligação deles com a Frente 16 das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC), que operava na região de Barranco Minas.
Segundo a acusação, “Luiz Fernando da Costa, Leonardo Dias de Mendonça e Emival Borges das Dores são traficantes internacionais de drogas que compraram cocaína de Tomás Molina Caracas e de outros membros das FARC em troca de dinheiro, armas e equipamentos e transportaram a cocaína para além dos limites territoriais da Colômbia, com destino a outros países”. Tomás Molina, conhecido como Negro Acácio, era o chefe da Frente 16 das FARC. Ele foi morto em 2007, numa ação do Exército da Colômbia.
Ao todo, a Justiça americana indiciou oito pessoas. Segundo a denúncia, em uma das operações, o grupo traficou cinco quilos de cocaína para os Estados Unidos e outros países. O processo contra Fernandinho Beira-Mar e Leonardo foi arquivado pela Justiça americana em 2013, que considerou que eles já cumpriam pena no Brasil.
Além de um lugar seguro, onde achava que não seria preso, Beira-Mar encontrou em Barranco Minas o local ideal para expandir os negócios. Segundo denúncia do Ministério Público da Colômbia, elaborada com informações fornecidas pela DEA, o traficante “tinha estabelecido de forma organizada o negócio de tráfico de alcaloides em Barranco Minas, recebendo como pagamento, além de dinheiro, armamento e munições, os quais fornecia, ao que parece, à guerrilha das FARC, pois na referida agenda são observadas anotações específicas para a aquisição da droga”, diz um trecho da denúncia apresentada à Justiça.
A agenda à qual o Ministério Público se refere foi apreendida com Eugenio Vargas Perdomo, o Carlos Bolas, administrador das FARC naquela região. A investigação comprovou, com a ajuda da ex-mulher de Beira-Mar, Elisete da Silva Lira, que a letra era do ex.
Carlos Bolas foi preso no Suriname em 2002 e extraditado para os Estados Unidos.
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